Djavan comenta a caixa que reúne sua obra remasterizada

"Eu ouvindo tudo, a impressão que eu tenho é que eu sempre procurei dar vazão à inventividade. Foi até bom eu ter ouvido esses discos todos de novo, para remasterizar.". No EPK produzido exclusivamente para o lançamento da primeira caixa reunindo a obra completa do artista, de 1976 a 2010, Djavan comenta seu processo de criação, suas inspirações e como foi a experiência de revisitar sua obra desde o primeiro álbum da carreira. Assista ao vídeo! 

 

 

 

 

Quem adquirir a Caixa Djavan levará ainda um texto inédito do artista, falando sobre cada disco presente na compilação. Leia aqui a íntegra do texto de Djavan:

"Comecei a ouvir toda a obra em função da remasterização geral e remixagem de algumas faixas, já contando com o desconforto que sentiria em alguns momentos: um arranjo equivocado, uma mixagem ruim, uma interpretação exacerbada, uma música mais ou menos, um teclado datado (nunca foi fácil achar um som definitivo num universo tão prolixo).  


Na primeira música, eu procurei ouvir cronologicamente, pensei no meu primeiro produtor, Aloysio de Oliveira, homem capaz e cheio de entusiasmo comigo. Disponibilizei, para sua apreciação e escolha, as 60 músicas que eu tinha. Somente 12 seriam escolhidas. Pensei: o que vai ser? Era o meu primeiro e mais que esperado disco - eu tinha que acertar. Enfim, ele me chamou e disse: tenho as 12, mas você pode mudar, se quiser. E me deu uma relação com oito sambas. Eu olhei para aquilo e pensei: meu Deus, não é isso! Tive vontade de discutir, mas temia que ele estivesse certo. E estava! A diversidade que eu queria mostrar já no primeiro disco, ele viu nos sambas que escolheu.


A audição da obra seguiu deparando-se com passagens inesquecíveis. Fui gravar o meu segundo disco longe das asas do meu tutor, João Araújo. A EMI, de Mariozinho Rocha, foi o período onde tudo que é hoje começou. Discos em que pude contar com a participação de ídolos como Chico, Caetano e Gil. Compus com eles  e para todas as estrelas que admiro!


A Sony (Djavan se refere à gravadora então denominada CBS) veio em seguida, querendo me abrir outros horizontes. O seu presidente, Thomás Muñoz,  me propôs  gravar e viver nos Estados Unidos. Eu disse que gravaria lá, mas que não moraria fora do Brasil. Em março de 82, levando a banda Sururu de Capote, desembarquei em Los Angeles para  gravação do Luz, com a participação de músicos americanos, ou radicados lá, e o Stevie Wonder. Era muita coisa num só momento. Quando se abriu a possibilidade de participação do Stevie, eu já tinha a música certa para recebê-lo: Samurai. Ele chegou para gravar a bordo de um rolls royce marrom. Estávamos todos à porta do estúdio pra vê-lo chegar. Foi uma alegria. Stevie sentou ao piano e começou a tocar a esmo: Cole Porter, Irving Berlin, Gershwin... Em dado momento, disse: acabei de compor uma nova canção. E começou a cantar Overjoyed. Em seguida, quis ouvir o que tinha do disco. Tinha tudo, praticamente. Depois, ouviu Samurai, umas quatro ou cinco vezes, pegou a harmônica, saiu tocando junto,  barbarizou!

O disco seguinte me fez conhecer a ira de muita gente. Lilás trouxe uma sonoridade que estava começando a ser explorada no mundo. Mesmo com a participação da banda Sururu de Capote, por causa dos teclados, o disco soava eletrônico. Para quem tinha acabado de fazer um disco semi-acústico tão elogiado, aquilo era um pecado mortal. Alguns perguntavam o que é que eu estava fazendo com a minha  carreira. Mas, de um ou outro, ouvi dizer que aquele disco trazia um certo pioneirismo estético, o que me bastou para afastar uma quase rejeição que pairava sobre a minha cabeça por um trabalho que continha clássicos como Lilás e Esquinas e uma música que me rendeu o mais belo momento de toda gravação: Obi. Uma boa música, letra bem construída, a Sururu no auge e as cordas do inglês Jeremy Lubbock. Eram  36 músicos dentro do Sunset Sound (baixos, cellos, violas e violinos). Na hora em que o maestro baixou o braço, emocionou.


De volta ao Brasil, decidi que o próximo seria gravado aqui. Entrei em estúdio para gravar Meu lado, no final de 85, somente com músicos brasileiros. Asa, música que músicos brasileiros e americanos adoram, simboliza essa fase da minha vida. Esse é um disco de transição. A partir dali, passei a ocupar mais espaço nas minhas produções, como já disse outras vezes, para chegar mais rápido onde eu já sei que quero ir.


Em 87, ainda buscando, como até hoje, voltei a Los Angeles para gravar Não é azul mas é mar. A Sururu de Capote mais uma vez estava ali junto com Ronnie Foster, Nathan East, Harvey Mason e Greg Phillinganes. Mas  o piano que o George Duke tocou em Bouquet foi o que mais me marcou.


O final da década chegou com Oceano deixando-me abismado com tanto sucesso, mesmo já tendo me encantado durante a gravação com a hiperatividade das mãos de Paco de Lucia! Como se pode tocar tanto?!


Meio perdido, sem saber o que fazer, comecei a gravar o Coisa de acender. Era meados de 91 e eu só tinha três músicas. Nenhum problema:  sempre gostei de compor durante o processo de gravação. É inspirador. Assim nasceram Boa noite, Se, Linha do Equador com Caetano, Violeiros, Outono e muitas outras.  É um disco citado por muita gente como o preferido.


No disco Novena,  quis fazer da escassez instrumental um trunfo, como tirar o bastante de tão pouco. Com aqueles músicos, não foi difícil. Fizemos um disco muito bonito.
Os discos Malásia e Bicho solto fecham a década de 90 com meu entusiasmo pela função de arranjador nas alturas. Coisas de que eu gostava mais, outras menos, mas já considerava arranjar tão importante quanto compor. Um deleite.


Foi no ano 2000 que comecei a prestar mais atenção no mercado. O disco Ao vivo vendeu quatro vezes mais que o meu álbum mais vendido até então (Luz, 500 mil). As coisas começaram a acontecer entre uma gravadora, ávida por repetir aquele feito, e eu, para fugir dele. Fui saindo da Sony aos poucos. Ainda gravei o Milagreiro por lá, disco de que eu gosto tanto. E abri a Luanda.


A ideia era cada vez mais gerir a carreira de modo pessoal e pelo desafio em si. A remixagem de algumas faixas do disco Vaidade deveu-se ao desejo de melhorar o que precisava continuar sendo o que sempre foi: níveis de alguns instrumentos, equalizações, coisas que incomodavam só a mim.  


Matizes foi a maior revelação de toda essa operação e o único que remixei integralmente. Na época, saí desse disco com a sensação de dever não cumprido. Não administrei bem os problemas que o envolveram e o resultado final não me satisfez totalmente. Mas, como o tempo urge, o esqueci. Agora, ao reouvi-lo, logo identifiquei tudo o que precisava ser feito e o disco se revelou outro - nuanças perdidas deram o ar da graça, arranjos soaram imperativos, vozes como eu sempre quis ouvir. Que bom!
Finalmente o velho sonho de fazer um disco não autoral materializa-se com o Ária. A ideia inicial era reeditar a minha fase de crooner do começo da carreira. Mas havia muito mais: como fazer um disco só com canções de outros autores ser um disco meu? O que cantar e como? Eu não sabia o que fazer! Resolvi seguir o instinto. Fui cantarolando as canções, me acomodando a elas, sentindo o que queriam para continuar lindas como sempre foram. Assim, o disco saiu.

Todas as preocupações e dificuldades de quem procura as coisas servem para aumentar a glória alcançada. Depois de tudo isso, tem-se a impressão de que se justifica dedicar uma vida inteira à música onde, como um ator, se pode ser outros como eu sempre sonhei". (Djavan)

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