O encontro com os fãs do sul

No dia 25 de março, Djavan levou Ária para o palco do Theatro Guarany, em Pelotas, Rio Grande do Sul. A noite foi inesquecível. É o que narra a jornalista Winne Fernandes em crítica publicada no Diário Popular. Confira:

"Como querer djavanear o que há de bom

Foi mais ou menos como diz o último trecho da música Eu te devoro: "Eu quero mesmo é viver, pra esperar, esperar, devorar você". Os fãs pelotenses esperaram. E, para ser precisa, esperaram 11 anos. Tudo para reviver o último show, devorar, escutar e aplaudir Djavan. Mais de 1.350 pessoas lotaram o Theatro Guarany na última sexta-feira, apesar do alto valor do ingresso - o mais barato custava R$ 160,00. O público por incrível que pareça era heterogêneo. Crianças, pais, avós, famílias estavam no teatro para prestigiar os 35 anos de carreira profissional de Djavan: e é como se ele tivesse uma fórmula para se infiltrar e gerar em qualquer faixa etária uma nova legião de fãs.

Se entrei no Guarany com a dúvida de que ele era um músico do presente e não do passado, saí com a certeza de que ele é de todos os tempos e de todos os mundos. Talvez tenha sido a senhora de 79 anos, que acompanhava o show do meu lado, a responsável por tudo isso. "Vamos pular (o fosso que separa a plateia do palco), não é tão alto, talvez consigamos ganhar um beijo dele", dizia ela para amiga que a acompanhava. Já pensou uma senhora pulando um fosso para ganhar um beijo do ídolo? Também, ouvi uma menininha, que não devia ter mais que dez anos, pedindo para a mais levá-la para mais próximo do palco, pois queria ver o Djavan de perto. E aí, a certeza se transformava em fato: ele é cativante. É um fenômeno.

A energia que transparecia na plateia era apenas reflexo do que se passava no palco. O entrosamento da banda formulada especialmente para gravar e sair em turnê com o disco Ária disseminava ondas vibrantes pelo teatro quase centenário. Da percussão de Marcos Suzano à guitarra de Torcuato Mariano, passando pelo contrabaixo acústico e elétrico de André Vasconcellos.

A suavidade e leveza com que o protagonista cantava, tocava e dançava eram paralisantes, empolgantes, Os clássicos ganhavam o apoio de um coral, que ancorava do início ao fim os sucessos do músico. Mas, e as músicas do novo CD, todas reeditadas e interpretadas, se consolidaram? Dá pra dizer que sim. Sim, o alagoano conseguiu vencer os obstáculos impostos por ele mesmo. Digo, porque ao conversar por telefone com Djavan na quarta-feira passada para uma reportagem ao Caderno Tudo do Diário Popular, ouvi dele que adorava arriscar, ter grande chance de errar. E interpretar arranjos e reeditar músicas de outros músicos era, realmente, uma tarefa difícil. Mas, difícil mesmo foi não aplaudir cada etapa vencida, cada canção interpretada com personalidade e talento. Das músicas, Palco, de Gilberto Gil, foi a mais ovacionada.

A energia entre o maestro (Djavan) e orquestra (banda) e o coral (plateia) era tanta, que ficar na cadeira era missão quase impossível. Entre um intervalo de uma música e outra, duas ou três vozes pediam para que o cantor botasse todos para dançar. E não demorou muito. Djavan convocou os pelotenses e, sem titubear, todos ouviram as últimas músicas de pé.

Sem fugir do jargão, Djavan encerrou "com chave de ouro" o retorno a Pelotas. A fila que se formou após o término do show para bater fotos e receber autógrafos no camarim não viu o músico sair por outra porta ou driblar os fãs, como muitos fazem. De dez em dez, o cantor recebeu a todos. Deu preferência às crianças, aos portadores de necessidades especiais e às fãs enlouquecidas que, inclusive, puderam bater foto dando um beijinho na bochecha do astro da MPB.

Confesso, saí encantada com tanto talento, vigor, profissionalismo e humildade. Com 62 anos e 35 de carreira, Djavan não precisava atender os fãs, o show faria todos voltarem em êxtase para casa. Mas não, ele sabe e soube reconhecer que tudo é uma cadeia. Que fã não existe sem um ídolo e vice-versa. O que ele me dizia por telefone era verdade: é realmente um menino, que rejuvenesce a cada elogio".

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